sábado, 15 de setembro de 2012

ACID SERIES: Carlos Severbuk: O velho, o cego e o novo blues



Há anos atrás, me casara com Silvia,
Ela era mais velha que eu,
Belíssimas pernas e um sorriso que só eu fazia surgir ou só eu enxergava...
Ela era viúva, tinha herdado uma bela casa e um carro,
Alguma dureza e vontade alguma de prosseguir,
Passamos dois anos juntos,
Até que ela desistiu de uma vez,
E agora o viúvo era eu...
Ela nunca tivera filhos,
Mas seu cachorro Tony, um mastim, substituíra qualquer carência neste sentido.
Tony durou 18 anos e Silvia teve a brilhante idéia de empalhá-lo depois da insuficiência pulmonar do cão. Na sala ele ficava, plantado, sempre me olhando, duro, com aquela expressão vazia...eu tinha pavor, mas Silvia assim queria e conversava com ele, todos os dias e por vezes não podíamos sair, para não deixar Tony sozinho.
- Ele nunca vai me deixar Carlos, ele é um anjo que me protege! Jamais enterraria ele!

Quando ela se foi, eu fiquei, e Tony também. Não tive coragem de tirá-lo de lá. Sabe deus que maldição recairia sobre mim caso colocasse o Tony no lixo.
Por semanas naquela casa, era o cachorro e eu.
Litros e mais litros de vinho, pra mim.
Ele já não consumia nada, talvez apenas a mim, com aqueles olhos amarelos.

Na noite de um sábado qualquer, não sei bem o porquê,
Deixei pra trás uma sala cheia de amargura e solidão,
Aquelas negras nuvens sobre o tapete de centro,
O vento insistente, que levantava cortinas e fazia voar guardanapos usados,
As cinzas de dentro do cinzeiro que voavam sobre mim...
Meus olhos abriram embora eu não tomasse consciência do que havia em frente a eles,
Cambaleei em direção à garagem e de lá rasguei a noite com o velho Volvo preto da Silvia.
O Volvo me levava pra algum lugar que eu não sabia qual era,
No retrovisor minha boca roxa do vinho,
Procurei por cigarros no porta luvas enquanto o Volvo rodava a 110 quilômetros por hora na avenida, não encontrava...
Parei, aliás, o Volvo parou, em um bar na beira da estrada, um lugar de filme americano, coisa do tipo. Lá dentro, um velho negro, cego tocava uma música velha com sua velha gaita de boca. Meia dúzia de gente atenta, meia dúzia embriagada. Eram três e meia da manhã de um sábado qualquer.
Pedi um maço de cigarros e uma long neck a uma gorda atendente.
Sentei vendo o cego no palco, ao fundo.
Quando estava no fim da cerveja me apareceu ela, do nada!
Olhos verdes, cabelos castanhos, uns 19 anos no máximo e juízo algum.
Sentou ao meu lado e pediu um cigarro.
Quando eu ia fazer uma ‘cara de não’, ela fez uma cara de ‘você jamais me diria não’.
Eram 30 anos de diferença, mas eu jamais acrescentaria um milímetro de maturidade àquela mente.
Acendi seu cigarro.
Ela tragou fundo,
E me jogou fumaça nos olhos,
E secou minha long neck,
E dançou com sua barriga de fora em frente ao meu nariz,

Na minha vida, até então, eu não tinha planos nem desejos. Não tinha emprego, sequer dívidas. Não havia ideologia, nem mesmo medo eu tinha...mas neste momento eu tinha o piercing dela enfiado em seu umbigo e ela roçando a ponta do piercing no meu nariz.

E ao fundo, o velho blues, de um velho negro, com sua velha gaita nos lábios.
Ele tocava e cantava roucamente:

... Minha pequena dama,
Quero beber do verde blues
Que brota de você,
Vou beber tua juventude,
Enquanto o sol reclama do meu renascer...

3 comentários:

eucontista disse...

tesão...não tem idade

Surto disse...

Caro Élinson,

Obrigado pela visita, o blues é dramático sempre, mas também é suave e esperançoso quando quer e o seu conto rima com tudo isto.

Grande Abraço

LauraAlberto disse...

isto pede um copo, ou dois, ou três...

beijinho